sexta-feira, dezembro 7

Arredia.





***


Um dia desses eu acordei querendo roubar a lua pra mim. Egoísmo! Disse a minha consciência. Ontem eu acabei descobrindo que tem alguém apaixonado por mim. Já parou pra pensar que enquanto estamos tão revoltados ou ligados em outras coisas da vida, pode ter alguém por ai que só pensa na gente? Que pode está apaixonado por nós? Nesse caso, por mim. Dia desses me sentir tão sozinha. Foi isso que me tirou dessa tremenda fossa. Eu sabia que em algum lugar desses tem alguém que é por mim. Essa história toda da lua surgiu como um surto da minha psiques mal curada. Se é que isso pode acontecer.   
Estava eu andando pela casa até quando escutei um barulho e como não me importava mais esse mundo, medo já não estava incluso em minha cons(ciência). Descobrir que tinham acabado de invadir a casa da minha vizinha. O pior que a invasão era de mentirinha. Ela tinha pagado um cara para invadir a casa dela e depois... Daí já não mais importa. Quando dei por mim estava muito próximo da varanda, percebendo todo aquele movimento que se passava. Quanto mais ele subia, ela fingia que gritava, até porque aquele horário mais “ninguém” estava acordado. Além de mim, claro, percebendo toda aquela cena cômica e um tanto quanto exagerada. Mas ainda assim me perguntava “Por quê?”. Primeiro pensei que pudesse realmente ter sido isso, pagamento e produção. Talvez ele fosse o que chamamos de moço da conta. Da conta das mãos, dos pés, das coxas... Mas e por que ele não poderia ser um amigo que veio conversar nas horas vagas enquanto sua família esta sonhando? Enfim, toda aquela história me trouxe uma sensação muito arredia. Eu simplesmente sentir raiva dela. Porque nem invadindo a minha casa conseguir tal proeza, aliás, nem nunca invadiram minha casa. Foi quando tive uma ideia!
 Era uma quinta feira à noite e eu estava totalmente em mim. Olhei pela janela que dá para vizinha, e a deixei entreaberta. Jurei que nunca mais faria isso. Peguei a minha chave, abrir a minha porta e deixei a chave lá, pendurada. Sentei no sofá como se esperasse qualquer coisa e a qualquer momento. Esperei. Esperei. Esperei... Cochilei. Acordei assustada dando o pulo do gato “Ai! Entraram e eu nem sentir!”. Dei-me conta de que a porta estava exatamente no mesmo lugar, eu sentada exatamente como estava e já era de manhã. Raiva. Esperei a outra quinta feira. Olhei pela janela e vi que a vizinha já se preparava para o desfrute. Foi quando peguei a chave, abrir a porta e sentei no sofá. Esperei, esperei... Nada. “Não é possível!” Gritei. E isso foi se repetindo, repetindo, repetindo. E foi se tornando um vício profundo. “Essa é a última vez.”.  Enganava-me.
Até o dia que eu fiz tudo como mandava meus costumes. Só que dessa vez a vizinha estava na sua sala de leitura, tomando chá. “Chá? Mas será que ela enlouqueceu? Ou simplesmente esqueceu que dia é hoje?” Enfim, encucada, mas continuei arrumando tudo nos conformes. Peguei a chave, abrir a porta e sentei no sofá. Só que dessa vez eu não cochilei, não teve nem tempo. Sentir que tinha alguém se aproximava. “Mas o que isso?”. Não me conformei. Todo esse tempo e agora que entrou? Não me conformei. Ele entrou, pegou as chaves e trancou a porta. Olhou pra janela entreaberta e me segurou firme. E ai eu cochilei. Profundamente. Só que dessa vez eu acordei com outra aparência, com outro cheiro, como outra. Nesse dia não sai de casa. Anoiteceu. Foi quando resolvi abrir a janela. Ai eu vi. Minha vizinha no quarto e o cara invadindo novamente sua casa, como de costume. “Mas... Mas... Mas! Então hoje é quinta feira?”
Percebe tudo que eu havia feito, estava ficando louca ou o quê? Não é possível. Fechei a janela, peguei a chave, abrir a porta e como ficou eu a deixei. Entrei pela sua porta entreaberta, subi suas escadas, entrei no seu quarto e vi a movimentação. Com um suspiro o homem que invadia a sua casa todas as quintas feiras nunca havia sido um problema perante a minha presença ali. Antes mesmo dela falar alguma coisa, ainda em pleno movimento, eu suspendi a minha inocência e fraqueza e disse “Ontem foi quarta feira!!!”. E em ininterruptos momentos, lancei a minha fraqueza perante aquele movimento. Foram dez lances. Em cada um.
Sai de lá, deixando a porta aberta e suas chaves penduradas na porta. Entrei em casa, fechei a porta e deixei a janela entreaberta. Sentei no sofá e cochilei. Um dia desses eu acordei querendo roubar a lua pra mim. Egoísmo! Disse a minha consciência. Ontem eu acabei descobrindo que tem alguém apaixonado por mim.



Marina Ramos

terça-feira, junho 26

Hoje eu acordei.




   Hoje eu acordei preocupado, não tinha certeza se era mesmo verdade tudo aquilo que aconteceu ontem comigo. Ou melhor, ontem não, há tempos aquilo estava na minha cabeça, rondando o meu corpo, a minha alma e os meus sentimentos que não vivem à sós. Ontem, é só uma maneira egoísta de contar o quanto eu demorei pra entender isso. Agora a incerteza percorre as minhas veias que estão saltando dos meus braços, da minha memória, da minha cabeça. Estou explodindo por dentro e tento omitir tudo isso por fora. Será mesmo preciso exigir tanto de mim? Será necessário mentir sobre isso? A verdade é que agora eu estou completamente, indeciso.

   Hoje eu acordei preocupado. O que eu quero contar é indescritível, ou incontável, são sentimentos involuntários. E sentimentos assim não se descrevem, não se entendem... São sentidos. Aliás, nenhum sentimento. Há algum tempo eu tenho evitando assumir tudo isso. É que agora eu cresce mais, começo a andar com meus próprios pés, está "tudo" dando certo e eu - modestia parte - agora eu sou diferente, a beleza bateu na minha porta. Entende? Assumir isso agora é tão difícil pra mim quanto pra você ,que me parece agora tão compreensiva e sensível pra mim. Eu não sei o valor disso, mas é muito forte e agora ninguém mais pode se entrometer. Acho que isso somos nós dois, e mais ninguém.

   Hoje eu estou prestes a acordar pra um novo sonho, sim, eu estou dizendo tudo isso pra você. Hoje eu acordei prestes a fazer uma loucura. Eu ia embora e ia deixar a pessoa que me completa ir embora também, me deixar, eu ia te deixar. Mas eu percebe que eu preciso fazer isso, preciso ficar e te contar o que eu sinto. E eu já começei, e se eu não continuar... Eu não o farei mais. Você conhece o meu jeito, sabe dos meus gostos e sabe que eu te engano. Que engraçado isso, mesmo sabendo que eu te enganava quando dizia que fazia uma coisa e estava em outro lugar, você me recebia com um sorriso limpo e com tanto amor e atenção! E isso em deixava louco! Louco de raiva por você não admitir que estava com ciúmes e que estava triste por eu não te dar a atenção que merecia. Louco ainda mais por gostar tanto de você e quando  te ver isso ser único, ser nosso, ser tanto assim! Nós. Louco por quando estamos distantes você lembrar de mim, e eu pensar tanto em você, mas não dou o braço a torcer. Louco por ser um covarde e preferir a minha liberdade.

   Quando estou com você eu sempre pensava em te contar isso, mas eu precisava de um tempo. Um distanciamento. É que eu não consigo admitir, não sei se vai dar certo, ou vai dar tão certo que eu só tenha você e mais ninguém. E você vem com esse jeiitnho de que me quer tanto pra você e pergunta "Pra que tanto medo?". Eu realmente queria saber, mesmo não admitindo que não sinto medo. Eu faço a sua cabeça, mas eu sei que você não é besta e você me quer bem. Aqui eu já pensei em parar várias vezes, mas quando você me olha assim, eu sei que é preciso continuar. Será que a gente se engana? E você novamente não entende a minha "enrolação" e me diz que a nossa sorte é o nosso ascendente. Eu transformei tudo isso em cobrança, em algo tradicional, mas eu confirmo, somos um "casal" diferente.


 Hoje eu acordei preocupado, é que eu, tão certinho, doidinho e popular, estou completamente apaixonado por uma menina linda, simples, doidinha e que anda descalça por ai.




Marina Ramos 

domingo, maio 13

A Meninice.


          


      Me disseram hoje que o sol não vai mais nascer. Fiquei tão desesperada que fui correndo pra casa. Quando cheguei, estava lá, a casa vazia. Entrei e comecei a procurar meus irmãos, um de cada vez, eu tinha feito uma lista mentalmente. Fui à cozinha, onde com toda certeza alguém estaria esperando por mim, a mamãe. Mas nem ela estava lá. Era como eu havia dito - vazia. Mas como? Precisava fazer alguma coisa, afinal, como viveríamos sem o sol daqui em diante? Elas que faziam valer cada minuto quando estava cansada de buscar água no poço, elas que me de alguma maneira me davam esperança para poder continuar a caminhar descalça pelo barro.
         Depois de um tempo sozinha, fui procurar o Adolfo. Entrei na sua casinha e ali fiquei. Ele também não estava mais. Acho que foram embora e me deixaram para trás. Será que eu devo ir atrás? Mas para onde eles poderiam ter ido? Nessa hora eu escutei um barulho que vinha do meu quarto. Bati a minha cabeça na quina na casa do Adolfo, corri até a cozinha peguei a colher de pau da mamãe e fui até a porta que já estava fechada. Fui andando olhando profundamente todos os cômodos que apareciam. Escutei novamente o barulho e me agachei atrás do sofá, de canto de olho percebe que tinha alguma coisa no quarto dos meus irmãos. Levantei e bem devagarzinho fui até a porta deles. Empurrei a porta e sair correndo de medo. Depois de um tempo voltei até o quarto e resolvi olhar se realmente havia alguém lá dentro. Nada. Sai com mais medo ainda, fechei a porta, fui para sala e nada. Voltei para a porta virei para frente e vi o resto do corredor. Não Sabia se olhava para o fim do corredor ou se olhava para trás, com medo de que a coisa misteriosa me pregasse uma peça por trás. Dei alguns passos e percebe que a coisa estava dentro do meu quarto. Encostada na parede do corredor fui me arrastando até o final do corredor.  Segurei na maçaneta como se prendesse o que estivesse lá dentro, do outro lado da porta. Por medo. Mesmo assim eu precisava terminar aquilo e encontrar a minha família. Empurrei a porta e gritei de olhos fechados. Depois de um tempo curto, abrir os olhos e percebe que dentro do meu quarto havia uma luz muito forte. Tomei coragem e comecei a entrar. Olhava para todos os lados inclusive para trás. Entrei e fechei a porta, para não correr riscos. A luz me incomodava bastante e ela estava vindo debaixo da minha cama. Um pouco distante, deitei no chão e vi o que era. Rapidamente outro barulho, alguém havia entrado na minha casa! Levantei abrir a porta do quarto e vi. Eram meus irmãos brincando pela sala, minha mãe cozinhando e minha avó costurando na varandinha. Achei estranho e fui novamente para casa do Adolfo, mas ele estava lá, dormindo como um anjo. É, um anjo. Foi quando eu percebe o que havia acontecido. E agora? Como eu levo o sol de volta para o céu?



Marina Ramos

sexta-feira, abril 13

À dois.






Lúcio está sentado em um canto da sala vazia, enquanto Malu esta no meio dela. Deitada, com as pernas para cima, lendo um livro com os cabelos soltos e espalhados pelo chão.

(pensativoMalu. 
(distraída com o livroOi. 
- Já pensou em escrever uma história?
(bocejandoAh não. 
(levantando e começando a andar devagar pela salaE por que não? 
(folheando o livroAh não. 
- Podia ser uma saída. Imagina só? Seria o momento certo de você conseguir colocar em prática todas essas suas ideias meio (pensa) “diferentes”, e ao mesmo tempo conseguiria desatinar um pouco esse nó que é a sua cabeça (segurando os pés dela) Uma história sem pé (olha para os pés dela e abri as pernas desta) nem cabeça.
- (rapidamente ela olha para as pernas abertas, fecha e vira de bruço) Não Lúcio. (olhando para o lirvo) Não é assim, simplesmente porque eu tenho que resolver um problema da minha vida, eu escrevo sobre isso e fim? Você acha que assim eu conseguiria resolver isso?
- Pelo menos fugir um pouco dessa molera (meio cansado)
- (vira para Lúcio, um pouco nervosa) E você queria o que? Que todos os meus assuntos inacabados fossem resolvidos assim? Eu escrevo uma história sobre isso e ai sim, eu relaxo. Esqueço? Não. Não é assim Lúcio.
- Poderia te ajudar, pelo menos para que você voltasse a querer... (abaixa até ela)
- O que? (senta)
- (meio desajeitado) Voltar. A escrever sobre coisas mais felizes.
- Ah. (vira-se para o livro) Já percebeu que as histórias mais bem contadas e mais bem resolvidas são as mais tristes? (fecha o livro) E elas vendem mais Lúcio. (levantando-se olhando ao seu redor como se procurasse outro livro)
- E o que importa? O que importa se vendem mais? Você não escrevia só por amor (concertando-se) Ou melhor, por paixão? 
- Ainda escrevo por isso. Mas a paixão já terminou.
- Tem certeza? (rir) Eu poderia agora mesmo te mostrar que isso tudo que aconteceu não foi por acaso.
- Ah é? Então me diz um motivo útil de chegarmos aqui e estar tudo totalmente vazio (olhando para Lúcio)
- (meio triste) Para que a gente pudesse aproveitar.
- Aproveitar o que Lúcio?
- Tipo... (alegremente) Dançar? Escrever...
- Dançar? Ah não.
- (pega na mão da Malu e a puxa para uma dança agitada) É Malu, esquece, deixa de ser tão metódica! Dance comigo!
- (rindo) Para com isso Lúcio.
- (continua) Vamos Malu!
- (rindo) Para com isso Lúcio!
- (continuando) Escreve Malu! Escreve sobre tanta coisa bonita que você conheceu que você faz! Escreve sobre o que você vê, escreve sobre seus sentimentos, escreve sobre você! (puxa ela) Escreve sobre nós.
- (ofegante e imobilizada) A gente pode só dançar então?
- (segurando ela mais devagar, abraça e dança junto no meio da sala) Sabe o que eu lembrei agora? Aquele dia que você ficou bêbada e começou a imitar Piaf, no final daquela música.
- (rindo e imitando a cantora) “Milord!”
- (rindo) É... (olha pra ela) E o melhor... é sentir que você acredita que faz igualzinho a ela. Eu queria...
- (olha pra baixo e ajeita o cabelo) Que você estivesse aqui de verdade... Eu já sei.
- E eu realmente conseguisse acreditar que você pudesse voltar a escrever para mim.
- (ela o beija de maneira diferente e igual para os dois) E eu queria que você pudesse perceber que eu ainda escrevo para você. (solta ele e volta a deitar no chão, ele volta para o canto de origem)
- Malu.
- Oi. (deitada e distraída com o livro)
- Já pensou em escrever uma história?


BLACK.



Marina Ramos

quinta-feira, março 29



Depois de um tempo a gente simplesmente se acostuma a esperar. 

Espera dar à hora de comer, espera a hora de dormir, espera por horas.

 Mesmo assim a pior espera é aquela que você sabe que não vai adiantar nada esperar. 

Mas você espera. 

Você já deve ter feito muita coisa nessa vida, mas acredite, metade delas foi esperando algo acontecer repentinamente. 

A sua, a minha, a nossa desculpa é simples, acreditar no destino.





Marina Ramos

quarta-feira, março 21

A Carta.



    

.


    Eu consigo me lembrar bem daquele vestido de cor avermelhada, com uma renda nas pontas, que suavemente formavam ondas quando ela passava próximo a água salgada. O que me fazia refletir era o que um vestido tão lindo como aquele fazia aquela hora na praia. Era renda. Renda! 

   Lembro também do momento em que ela deixou os dois saltinhos serem levados pela maré e distante, pensava. Até que algo me chamou atenção, a sua renda estava rasgada na ponta direita, isso se você olhasse de costas. Mas era renda. Por que? 

   Quando percebeu que eu estava próximo, limpou o rosto com a mão cheia d'água, olhou para o nada e me perguntou com muita fragilidade: "Você gostaria de ter um amor para vida toda" 2 segundos depois ela retrucou a si própria e disse: "Tola!". Eu pensei. Virei o rosto para aquela renda imperfeita e perguntei: "Você acredita que se possa amar uma só pessoa na vida?". Duvidosa, indecisa e com toda certeza machucada. 

   Me sentei próximo aos seus pés e tentei enxergar o horizonte. Ela se sentou, cruzou as pernas e me olhou. Sem falar uma só palavra deitou sua cabeça no meu ombro. Estático. Imperfeito como a sua renda. A mágica estava feita. Era como um passarinho solto, porém, perdido. Olhou para mim, quase me comendo com os olhos (nunca ninguém me olhou com tal profundidade). 

   Meio chorosa ela respondeu com a cabeça "Não". E eu juro que não lembro direito o tempo, a hora e o clima. Só sei que foi o beijo mais verdadeiro que já recebe. Depois disso eu estava completamente dentro da sua teoria. Um amor para vida toda. Depois daquela noite nas minhas lembranças, essas sim para a vida toda. 

   Hoje eu não me lembro mais de você, meu amor, mas aquele sorriso eu nunca mais irei esquecer.





Marina Ramos

domingo, fevereiro 26

1999.


1999.



Agosto - daquele dia.


   Uma história que não tem mais fim, ela volta. E volta, e volta... E... Volta. Já se passaram quase 9 dias e ela não volta. A sensação não é de perda. A sensação não é de ganho. A sensação é insensível. 9 dias.
   Ela entrou me olhou e disse que queria sair. Eu olhei pra ela e nada disse, como se nada tivesse acontecido voltei para o quarto e com olhos ela me acompanhou. Mesmo que eu não estivesse olhando-a nos olhos, de alguma forma ela conseguia me enxergar. Talvez eu estivesse tão transparente a esse ponto, talvez ela estivesse enxergando demais.
   Como se fosse um ser invisível ela pedia de todas as formas para que eu a deixasse. E de todas as formas eu a fazia sentar. Ela não queria mais. Já estava cansada, ela disse. Depois de 9 minutos esperando na porta, ela entrou, segurou meu rosto e disse: Me deixa. Ali eu percebi que ela só iria embora se eu a deixasse ir. Depois disso eu a segurei pelos braços, fiz com que ela se sentasse na cama... E ela me acompanhava. Em 9 segundos ela sentou, e em mais 9 ela não mais aguentou. Deitou e deixou que eu a levasse para casa.
   Depois de derramar exatamente 9 lágrimas.
   Eu a fiz levantar, eu a fiz arrumar as roupas, eu a fiz enxugar aquelas lágrimas, eu a fiz... Segurou forte a maçaneta da porta, deixou as chaves, novinhas aquelas, em cima da TV e como ela mesma diria p’ra mim se estivesse aqui, cantou. Eu amo você.
Saiu pela porta correndo, deixou cair todas as roupas pela escada, deixou o retrato quebrar, tropeçou, caiu, chorou e gritou! Me deixe ir. E de lá de cima, silenciosamente segurei a maçaneta da porta, fechei com as chaves, 9... Novinhas aquelas. E a deixei voar.



Marina Ramos

terça-feira, fevereiro 14

Eu te amo, eu te amo, eu te amo... Eu não te amo (continuação III)



PARTE III





(parece escutar uma música e senti-la, mas logo para) Presa. (olha fixamente para frente e tenta controlar a raiva) Por tanto tempo. E a única saída era tentar enxergar os lados, que nem com uma régua seria capaz de medir, porque o tamanho não mais importava. (não com a cabeça) Depois de ouvir todos aqueles sons me perguntei se haviam se esquecido do ser humano guardado naquela gaveta. Insoço e talvez um tanto quanto burro. Porque é isso, (controla o choro) é isso que os seres tem se tornado, sensível no ponto principal, até o ponto de tortura crucial. O tamanho da cicatriz (mão no peito deixando lagrimas caírem) não cabe mais aqui, nem se esquecesse. Não era capaz. O meu controle remoto esta desligado. Terceira coisa. Mesmo que lhe arranquem, porque é isso que vão fazer lhe arrancar as lembranças pensamentos, deixe que o desespero te corroa por inteiro, parece que assim você consegue estar mais próximo do seu eu espiritual e talvez de uma “salvação”.  Deixe que os sons aproximem você de uma esperança, mesmo que tudo esteja perdido, porque é assim que você vai pensar no que te resta de memória. Sempre há salvação, mesmo que depois você saia com uma enorme fratura exposta (rir) tire essa imagem de fratura da cabeça, não é dessa que eu falo. Pense, ainda te resta muito tempo, ou não. Mas pense que há. Porque imagine um espaço onde criar ilusões esta tão distante? Até mesmo um ser vivo controlado precisa de ilusões para sobreviver.  O descontrolado já vive disso. Se vive? (chega perto) Vive. Quarta coisa, acabei de dizer. Não adianta ninguém dizer o quanto dueu, nem mesmo você dizer o quanto dói (lágrima cai na face) porque não existe uma explicação lógica (movimenta-se pouco) só você consegui sentir, até porque não tem como se entender. É seu. Foi seu. “Eu entendo”? (não com a cabeça) Não entende. Quinta coisa. Fortaleza. Depois de dias preso dentro de você mesmo é preciso tentar enxergar o que esta acontecendo, porque só você pode enxergar isso (aponta) Só você. Não é triste isso, ou pelo menos não era pra ser (limpa as lágrimas) O que um dia dueu em mim pode ser que não afete ninguém. E não é pra isso que a gente sofre. (pensativa) E por que mesmo a gente sofre? (rir) Não tente explicar, é tão igual à vida.
(...)



Marina Ramos


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Diá(logo)s



- É... Você sabe do que eu estou falando não é!?
- Sei sim... Inspiração.



Marina Ramos 

terça-feira, fevereiro 7

Eu te amo, eu te amo, eu te amo... Eu não te amo. (continuação II)






PARTE II


Primeira coisa, invisibilidade. Para isso prepare um ser humano sem nenhum tipo de objetivo e com muita caraminhola na cabeça, assim você pode guardá-lo numa gaveta e deixá-lo refletir por algum tempo, este indeterminado para que a reflexão seja transformadora. Segundo ele nada é demais ao ponto de salvar. De todas as formas, os pontos essenciais para que o universo esteja a seu favor é talvez desajeitar toda e qualquer tipo de memória. Segundo, estralhace os seus pensamentos, depois apenas queime, mas de forma esporádica. São pontos cruciais para o entendimento humano, suas lembranças. Elas sempre aparecem quando mais precisamos e rapidamente se cria uma fórmula giratória de pensamento, então melhor queimá-las.  (rir) Ah! Não podemos esquecer de um espaço bem fechado, sem janelas, ou melhor (olha pra cima) se tiver algumas rachaduras no teto e como não haveria de ter não é? Porque você pode tentar sair até por la. Fugir? Você vai tentar, mas ninguém lhe disse que ia conseguir. (grita) Grite! Mas não vai adiantar, porque o escuro vai deixar você um pouco mais aflito e ansioso. Ele vai estragar tudo. Então não grite. Seja forte (rir novamente ironicamente) forte. E ai você pensa, talvez eu agradeça. Por ter conseguido queimar todo e qualquer tipo de lembrança de pensamentos. Porque um dia queimados, nunca mais refeitos. Então eu vou esquecer de cada momento e cada palavra (forte) Esquecer.
(...)



Marina Ramos



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sábado, fevereiro 4

Mesmo assim...

Em meio a tanta desordem eu ainda tenho privilégios: sou feita totalmente de ofício, lápis e borracha.




Marina Ramos

terça-feira, janeiro 31

Mas e por que eu não posso me apaixonar por ela.



- Mas e por que eu não posso me apaixonar por ela?

- Eu já te disse, porque é ela e acabou.

- Mas eu também já te disse, não tem outro jeito. Você não vê o jeito que ela me olha?

- Vejo.

- Não percebe os quão ligados estamos?

- Percebo.


- Consegue sentir o cheiro do cabelo dela em suas mãos depois mesmo dela ir embora?


- Consigo.

- Entende quando ela diz uma coisa, mas na verdade é outra. Ou quando ela rir, mesmo achando a piada sem graça só pra não deixar quem contou apático? Ou quando ela rir por mais ou menos uns 10 minutos sem parar?

- Sim.

- Senti quando ela ta com medo e pedi pra seguir ela, porque algo de ruim pode acontecer, e ai você confia nela... Confia.

- Sim.

-E depois de estar conversando com seus amigos, no meio do nada ela olhar pra você e sorrir, mas simplesmente sorrir e depois voltar a conversar. Ou quando ela ajeita o cabelo no rosto, ou bagunça ele todo zuando com o mundo... E até mesmo prende ele por causa do calor.

- É.

- Consegue perceber o quanto ela se importa com as pessoas e os animais, e quando sabe que não pode fazer nada... Ela chora, e um abraço pra ela é suficiente? Se você consegue perceber isso, eu não vejo o porquê de estar querendo que eu me afaste dela. Você não a conhece o quanto acha que conhece.

- Conheço.

- Eu também não a conheço tanto assim, mas eu sei quando ela ta rindo de verdade e quando ela esta calada é porque algo aconteceu. E se ela não quiser papo, ela vai me avisar. Ela já te contou sobre seus sonhos? Ou suas vontades? Desejos? Aposto que ela não comentou todas as manias dela com você, e sim... Ela se acha feia, mas eu sei que é pra eu a chamar de linda o tempo todo, porque ela é...




- Mas...

- Mas nada, eu não vejo um motivo para que eu me afaste de uma pessoa que me quer perto dela. Mesmo que a gente seja somente amigos, vou conversar com ela hoje, e contar sobre todos os seus sete sorrisos.

- Sete?

- Um quando ela ta muito feliz e diz que é maluca o tempo todo, outro quando ta envergonhada, outro quando rir pra não precisar falar, ou outro quando vê alguém ou algo engraçado. Outro quando esta nervosa e precisa de ajuda, outro quando está com saudade e outro quando quer abraçar alguém.

- Você não pode se apaixonar por ela.

- Agora é tarde e não vai ser por alguém, mesmo um amigo, que eu vou desistir de tê-la em meus braços.


- Não pode... Porque eu estou apaixonado por ela também.

- O que?

- E por sinal, faltou um sorriso de quando coincidentemente ela sente o mesmo por alguém.



Marina Ramos

sábado, janeiro 28

Eu te amo, eu te amo, eu te amo... Eu não te amo.



PARTE I

(Um espaço vazio, uma cadeira no centro, um foco de luz)

(olhando pra baixo) Já se passaram tantos dias depois disso, e como eu havia tentado explicar (pausa) é difícil, ainda assim, eu posso tentar. Você tem ideia do que é a vida? É tão igual, tão parecido com o amor (olhando pra frente) é estranho, sem um conceito pronto, preparado pra ser extrapolado com um manual de instruções. O que será que podemos ou não fazer? E qual o sentido de cada momento que passamos? Você. Sabe dizer? (olha pra frente e aponta) Por que você esta sentado ai sem dizer uma só palavra e me olha (voz firme) desse jeito! Sente medo? Ou apenas esta esperando ouvir metade das coisas que escuta todos os dias? (balança a cabeça como sim) É. Como já esperava. Olha pro seu lado, consegue enxergar alguma coisa? Não, além disso, você consegue ver? Esperei várias noites (pausa) noites? Como se eu soubesse se era dia, mas dava pra sentir. O tempo mudava, apesar do barulho que se escutava, acostumava. O som agudo, fundo e quase imperecível de lembranças sujas já não era mais um desconforto. Imagine você (se vira para frente) consegue guardar um segredo?  (rir e balança a cabeça como um não) Não sabe. E graças a isso eu demorei tanto pra entender.  Já percebeu quantas vezes a gente morri em um dia? (olha fixo) Eu não. Antes disso eu só conseguia perceber o silêncio. (se vira rapidamente e olha ao redor) Consegue escutar? É só isso. O silêncio. O pequeno silencioso silêncio dos incompreendidos e controlados remotamente. Assim.  Ta aqui pra que? Quer ouvir mais uma história ou apenas mais dez mandamentos para ter a certeza de que ninguém presta nesta bosta de espaço? Nenhum som era igual aquele (mãos no ouvido) Tão agudo e frio. Ficava lá (aponta) esperando que a qualquer momento algo pudesse aparecer e acontecer. Tudo tão sujo, podre, fedia a (estala os dedos) pó.  Eu posso dizer o que você quer escutar, que foi pra isso que você veio não é? (rir) Perguntas. Nunca serão totalmente respondidas. E as dúvidas sempre permaneceram. Fato. Fato? 
(...)


Marina Ramos


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quarta-feira, janeiro 18

Ver(de) Perto


Eu tenho enxergado muito mais do que conseguia ver.
Eu tenho conseguido ver muito mais do que enxergado.
Eu tenho muito mais enxergado do que conseguia ver.
Conseguia, eu, enxergado, muito mais do que tenho ver.
Enxergado tenho, muito mais eu, do que ver conseguido.


Muito mais enxergado tenho eu, do que conseguido ver.
Ver que muito enxergado, eu tenho conseguido mais.
Mais conseguido tenho eu, que ver muito enxergado.
Que muito enxergado ver, conseguido eu tenho mais.
Tenho eu enxergado mais que conseguido ver.


Marina Ramos

domingo, janeiro 15

De(clara)ção

eu quero um romance 
que seja simples
e ao mesmo tempo complexo
dificilmente de se entender
de se compreender
mas que
a cada sorriso possa ser entendido 
uma briga
uma discussão
ou um bréu total
mas que
me faça sonhar a cada dia
Que venha de uma forma 
calma e estupefata
Que venha de um estilo impecável
com covinhas, porque covinhas 
são lindas!
Que seja pra mim
mas que
seja pra todo mundo
Que seja pra nós
e a cada certeza que eu tenha de que amo você
eu possa ser a sua luz
que ilumine 
que confie
que possa acreditar
e mesmo assim duvidar
e mesmo assim apaixonantemente sua
Que venha com uma pitada de Aline
e baseado em fatos, redundantemente, reais
Que venha do jeitinho da Dona flor... 
pode ser com os dois maridos
mas que
aja amor e respeito
Eu quero um romance
diferente e igual
Que eu possa sentir saudade
e quando eu ver
quase morrer de felicidade
e ser pra você
naquele momento
e em qualquer um
quero poder ser o seu mar
sua lua
sua luz
Que venha cantor
mágico, com um nariz vermelho, um violão na mão
mesmo que não saiba tocar
E que não tenha vergonha de dizer
"Eu não sei" 
e simplesmente sorrir
Apenas
que ame e seja forte 
quando eu disser
Eu quero um tempo
pra nós dois
Sim.
Eu vou saber quando vai ser esse tempo
eu quero
e você quer?
Escutei um claro? Com um sorriso largo no rosto?
Que venha de forma despretensiosa, mas que tenha pretensão
Que cresça comigo
Sendo feliz por ser o que é
E sempre querendo ser mais iluminado 
Queria eu
Queria ser sua
Queira eu
Queira a nós
Que faça uma serenata 
sem vergonha em todos os sentidos
mesmo que não saiba cantar, desse jeito fica até mais bonito
Não faça a barba ou não corte o cabelo
E deixa que eu suje você
mesmo que seja de tinta
Ou com as minhas lágrimas
Chore pra eu ver
e poder limpar suas lágrimas
Seja sim um cafajeste
mas seja fiel ao seu amor
Não falo de traição.
Eu disse que quero uma pitada de Dona flor, não disse?
eu quero um romance.


Marina Ramos

domingo, janeiro 8

Anítides, do rio, do seu, olhar.





 A        AM
Pintei um quadro perfeito
 G                          RÉ
Com um sorriso teu
 A         AM
Pintei um dia feliz
EM                       RÉ
Com os sonhos meus


Marina Ramos

08/01/12