terça-feira, fevereiro 19

À última flor da janela do lado da casa esquerda.







           Era noite e gelava como nunca mais havia esfriado. Ela nunca mais havia aparecido na janela, era um pouco difícil perceber aquilo tudo. Para que eu conseguisse enxergar algum tipo de movimento se fazia necessário me amarrar ao pé da cama e envergar-me até não conseguir tocar os pés no chão. Daquela forma passei todos esses 5 meses, no entanto ela nunca me viu.
           Um dia tive a péssima ideia de me envergar um pouco mais, afinal, ela valia qualquer tipo de tentativa. Mas dessa vez fui muito além, mas não passei do chão do jardim. Quando acordando estava, sentir uma presença de jasmim ao meu redor estava no jardim e alguém me puxava os cabelos. Ela era. Tão pequena tão razoável. Simples. Tão minha e tão livre. Era como se ela respirasse como um passarinho que podia perceber os sentidos de qualquer outro animal que se aproximasse.
          Era perfeito. Eu tinha a situação, o acidente, o momento e a flor. Foi quando por uma imensidão de imensuráveis e lentos 3 minutos ela sumiu. E eu acordei de uma leve pancada. Mas não era possível que aquilo pudesse ter sido somente um sonho. Ou um sinal. Talvez um sinal. E como lidar com algo tão distante? Como entender este sinal? Dias se passaram até eu entender que tudo aquilo era poesia. Amor. Uma paz imensa que me invadia me envolvia e me rasgava a alma. Eu estava complemente louc@, alucinad@ e incapaz de entender tudo aquilo. Todo aquele sentimento que me não me suportava, que sem respeitar o meu espaço e minhas vontades rompiam a porta do meu coração.
          Daquela casa nada era normal. Movimentações suspeitas e um jarro lindo no canto esquerdo. Um jarro lindo, uma cor avermelhada e ao mesmo tempo um verde que sobressaia de dentro. Eram detalhes que me envaideciam e me preenchiam. Um dia passei o dia me perguntando se talvez, alguém, um dia, pudesse me olhar de lá. Mas não. Isso nunca aconteceu. Por mais otimista e esperançosa que a situação me propiciava. Contudo, aquela janela me enchia de prazer e verdades, vaidades. Narcisismos e um tanto de reflexões.
            5 meses exatos de frio extremo. 5 exatos meses de puro  anti socialismo. Voltando ao acidente, que permeava a minha memória, sentir vontade de poder expressar tudo que estava engasgando-me há tempos antigos. Antigos e miseráveis tempos de tortura. Tortura esta de amor. Platônico e ensurdecedor amor que me sugava a alma. Como era possível? Um alguém tão distante e ao mesmo tempo tão próximo?
        Nessa sensação de loucura e complexos, tomei coragem e fui até a porta. De longe, atravessava olhando para os lados rezando para que um caminhão passasse muito perto e com um susto eu me assustasse e novamente, como sempre, fugisse dali. Mas o miserável não passou. Andei mais devagar e nada. Cheguei até a porta, olhei para cima como se esperasse um possível sinal novo. O sol estava pino, e o frio era de doer. Como um filete milagroso, o sol havia em cegado. E olhando para cima permaneci. Aflit@.
        Com seus exatos e puros 3 minutos em que cronometrei as batidas do meu coração juntamente com o da porta, a minha cegueira momentânea e todo o meu amor maluco sentir algo em arrebatar. O jarro havia caído sobre a minha cabeça. Cai no chão como qualquer coisa que saia do seu pé, da sua origem. Relativo.
      Um pouco sombri@, fui acordando e lá estava ela. Uma linda imagem, uma linda renascença. Um mistério delicioso de se querer provar. Um sabor quase inerente. Uma vida quase que propícia a loucuras. Uma bela e impermeável menina, a última flor da janela do lado da casa esquerda.



Marina Ramos