sábado, março 26

Sinto cheiro de maracujá em todo canto da casa.






     Hoje a minha inspiração são só pra frases. E nenhuma delas faz nenhum tipo se quer de sentido algum. Eu já escrevo sobre tudo hoje, e nada dar certo. Nada faz sentido. É como se eu fosse parar... De viver... Agora mesmo! Agora mesmo! Me falta o ar. (aaaaaar! Finge que morre) Mas ninguém nunca acreditaria nisso. Uma crise aos míseros dezessete, novinhos, porque sete é no masculino. Mas é a mesma crise dos doze. Os míseros doze só que agora é tudo ao contrário. E eu nem sei mesmo explicar cada palavra que eu digo. (põe o ar pra fora) E o ar me falta. 
     Gosto de lembrar dos meus novinhos doze. Os doze, também masculinos. Não que eu seja. (se toca) Não que... Não importe. Mas ora, os doze são dádivas, (pega nos peitos) são duas dádivas... Grandes, (pausa) agora... Grandes.  Portão 28, apt 501, prédio cor de pêssego e (tira um pêssego do bolso e o cheira) um cheirinho de pão com passas que saía do forno exatamente às 15:30, as vezes 15:35, porque o padeiro só pensava nos sonhos. E eu digo sonhos, literal. Era um cheiro tão bom, cheiro de aniversário. E já deu pra reparar que na palavra aniversário tem um “RS” como um riso? Da expressão que a gente utiliza na internet.  Eu reparei isso muito antes que você. (come o pêssego) Aposto que ta todo mundo nisso agora não? 
    (respira fundo) Eu gosto de ter boas lembranças, de guardar tudo aqui comigo. Já era pra eu ter mudado inclusive de apartamento, mas elas não me deixam. As lembranças me seguram aqui. E eu gostaria tanto de ter menos manias. É que eu me pergunto, uma pessoa como eu, tão plenamente refinada (imita uma lady), não deveria ter tantas manias. (olha pro lado) A senhora não acha milady? (imita a voz da milady) “Oh, mas sim é claro, uma mulher tão refinada como eu, não deveria dar tanta trela pra histórias tão pouco românticas, agrestes, de poucas expressões, verdades intensas e pouca retratação.” (volta) Ah, mas milady assim você me envergonha na frente dos meus convidados! “E não poderia deixar de lembrar que hoje é um dia especial, não?” Um dia especial? Só se for para a senhora que estar prestes a entrar na crise dos 45. “Oh, mas isso é um insulto, claro e calculado. Você é fria” Ah senhora não sabe como! “Pare de ser não obsoleta. Seja menos animalesca, e não me destrate assim! Ora, sua menina insolente!” Ora, sua senhora sem nenhum tipo de escrúpulos! “Ora” Ora “Ora!” (suga o ar) Mas me falta o ar. Que triste notícia para ser lhe dada milady, (plateia) meus caros, estou prestes a entrar numa fase de insustentáveis negações, inúmeras e repentinas insatisfações sexuais, procuras e infelicidades inconstantes. Estou inconstante. Eu sou realmente assim (abre um chiclete), uma pequena burguesa, infeliz que sou. (COMO CENA) OH céus, trovoadas e Jasões, porque, pelo o que me deixam!? 
    (volta a si) Apt 501, portão 28, prédio com de pêssego e um cheirinho de pão doce, de passas se me lembro muito bem.  (levanta e sai dançando) Ah, e como era bom não entender nada sobre o que fazíamos, não é mesmo milady? Como era bom, aos doze é tudo tão fácil. “Olha lá, a menina, aos doze, pura e sem nenhum pensamento medíocre ou fugás.” Idiotas! Não sabem de nada, uma pura e sem nenhum pensamento blablabla? Eu era uma puta! (senta-se, procurando algo no diário) Porque eram assim que se chamavam as mulheres que se “metiam a besta” em retrucar algum tipo de informação dada por qualquer um da época. 1999. E ainda assim eu recebo tantas e quantas pauladas na goela por falar o que eu quero. E assim, eu, grande pessoa. 
    Milady? Ainda está aqui? Oh, que pena. Levaram milady. Acho que agora assim Pasárgada aguentará mais uma no inferno. Ou nos céus de Dionísio! Mas milady tinha a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes (fecha o diário e respira fundo) Oh! Já me basta! Sinto cheiro de maracujá em todo canto da casa. (Guarda o chiclete embaixo da cadeira, mão no peito) A procura por aqui acaba, estou feliz assim, não tanto como a milady, pois ela, diriam, se desencontrou. 
    E eu... (tira mão do peito) Me desencantei. Eu não quero dizer nada mais. (abaixa a cabeça e levanta rapidamente) Eu quero dizer TUDO. Apt 501, e hoje eu nunca mais volto aqui. Meu nome você e a gente vai ser muito feliz juntos. Porque juntos somos alguém. Apenas um espinho que sabe da dor, do amor e suas paródias. (abaixa a cabeça) Eu amo a lógica, e me perco na ilusão. Hoje é meu aniversário, décimo oitavo ano. Prazer, Paloma e eu posso ser o que eu quiser.



BLACK



Marina Lua

Muralharim




Avisto uma muralha
            Um pouco de curiosidade
            Uma pitada de incerteza
            Uma chuva de cores
            Pedra, papel e tesoura
            Nada disso
            Imaginação
            Compreensão
            Alívio e tensão
            Seria mesmo uma muralha?
            Ou um tsunami?
            Nada disso
                                           Sou eu mesma            
     Só que pensando


por  Marina Lua