quinta-feira, novembro 28

A Muda.






***

           Acordada já às 6h da matina, batida na mesa, mamão, requeijão, pão. A agonia de ver o açúcar e melaço de cana misturado com o barulho suado do cano em gotas debaixo da pia. Combinada com um vestido verde limão e uma porção de livros que empurravam seu estômago fazendo com que o café da manhã se fizesse satisfeito em si.
Saindo, de caso, beijava a mão do apartamento 105, vigiava o corredor, sorria para dentro. Era possível se escutar o som das sapatilhas tamanho 36 do outro lado da rua. Vigiava o corredor correndo sobre as cartas que caíam da mão do 107. A vida era feita de satisfações e desejos que a fazia crer em um dia totalmente novo, mudado de novo. Descia os degraus, cantarolava baixinho, colocava os fios que restavam por detrás da orelha e sorria. Esperta. Olhava sempre da janela do térreo e buscava no horizonte um corpo de cor azul ou pudera também ser violeta. Mas nada. Nunca uma cor azulada por alí.
Já umas 7h e pouco mais, saía pelo portão principal do seu prédio por vezes medíocre. Saltitava como se escutasse música que saía dos seus quadris finos e gentis. A roupa de chita conversava com seus jovens ombros robustos, seus dedos de anéis, colar que faltava miçangas, esmalte cor de unha e lábios que a definiam como uma suposta menina ordinária. Enquanto as cores calmas ainda não se podiam fazer em corpos, utilizava a calçada como meio de um encontro que poderia defini-la como dona do seu próprio ser. Sem pisar nas linhas que definiam os quadrados do chão, saltava como uma amarelinha cruzando os pés e os dedos das mãos, os quais a faziam crer na sorte daquele dia.
Antes do cheiro do trabalho e o do café se aproximar um alguém passava segurando as paredes descascadas de um desenho já levado pelo tempo carregado de papéis ao redor de pessoas se rifando por mais inutilidades. Ela, como num salto, foi puxada para o chão onde pudesse enxergar o que estava acontecendo. Caindo sobre os pés de um alto, com cabelos levinhos e branquinhos, arregalava os olhos como quem pedisse perdão. Levantou-se, agarrou os livros e percebeu algo de diferente naqueles cabelos brancos que soltavam histórias pelos fios. Passou as mãos no seu rosto, mas sem toca-lo e entendeu. Ele não enxergara nem se quer um palmo em direção a sua face.


Segurou-o pelo ombro até chegar ao ponto de ônibus. Ambos sorriam sem nada a falar. Em despedida deu a ela um papel embrulhado, apertou e beijou a mão que incrivelmente era doce como seu olhar parado. Dalí ela seguia para sua responsabilidade na lanchonete da esquina. Atravessou a rua, entrou, trocou de roupa, colocou o avental deixando cair o papel embrulhado que havia ganhado há pouco. Com muito cuidado e doçura desamassava o segredo. Em surpresa nada havia escrito. Era um pedaço de papel de biscoito. Um papel de cor azul. Sorriu com esperteza e seguiu o dia. E alí se fazia Joana, a menina que evitava as palavras. Da janela do térreo não se podia perceber a existência feliz que existia no 103. 



Marina Lua Ramos

sábado, setembro 14

5 de setembro, uma história efêmera.



***


          Eu nem lembro mais o beijo dele. Nem gosto, nem forma, nem sorriso nem como vinha. Me recordo bem, porém, com olhinhos cerrados de paixão, quando você vinha me beijar em surpresa, enquanto brincava com as meninas. Me lembro de reflexos apenas, do seu corpinho que me chegava, distante e leve. E eu te gostava tanto por ser assim. O nosso amor era digno de se mostrar, viver. Digno de uma suposta inveja. Naquele dia, o nosso último grande dia, não por tempo, mas por nós. Éramos nós, juntos. 
      E você me propunha ficar ali para sempre e como eu queria mesmo estar para além daquele dia. Doce, livre, forte, nossa. Lembro da minha chegada, o primeiro olhar e o apresso da lua. Eu consigo lembrar da sua face séria e do sorriso que sempre carregava no corpo. Do pedido para os primeiros chamegos, dos corpos únicos, das brincadeiras e tirações de sarro, dos almoços e da sua mania de mandar em quem está cozinhando, de como sabíamos estar juntos e com os amigos também. De como parecia verdadeiro, mas ainda assim agia de forma desconfiada e assim eu me divertia. 
        Recordo em uma das minhas chegadas o jeito que me olhava e esperava eu aparecer pra te fazer certezas de quereres. Lembro com graça do seu jeitinho manso e dos seus pés sujo de areia. Além da sua forma singular de tomar banho de roupa e tudo. Eu juro e hoje sei que em cada momento juntos eu te amei tanto, querendo te cuidar sempre, te fazer parar de fugir das obrigações e das válvulas de escape. 
      Eu te quis tanto que te deixei no "último" momento, por medo de não conseguir dar conta deste cuidado que se mostrou tão intenso e necessário. Apesar disso, não criei arrependimentos e "segurei" muito a leve tristeza de saber que facilmente, ou não, outra ocupou esse espaço que tanto você dizia ser meu. Mas afinal, nunca foi, não será de ninguém e por te amar eu te deixei viver. No entanto, sei das lembranças, das memórias, mas não consigo lembrar do seu beijo mais.



Marina Lua Ramos

terça-feira, julho 16

A gente.



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Eu mesma que um dia disse que não
Hoje olho pra trás e percebo o quanto já fiz
Pra que depois tudo fizesse sentido
Ainda que longe, tão perto estive
Ainda que longe, tão ligada estive
Ainda que perto, tão cega me mantive
Eu queria poder, falar o por que
De tanta asneira, uma cabeça merecer
Antes eu não conseguia te ver, mesmo que você passasse tão de perto
As minhas vistas estavam embasadas, costuradas a outros olhares
Os meus olhos estavam encantados por um outro coração
Que favor fez em me libertar de um tão forte pensamento
De um forte seguimento
De um intenso falso amor
É que não existe fórmula, acontece
Simplesmente ou não, acontece
Depois de um certo tempo
A natureza fez seu trabalho
Me levou até o paraíso, e de lá me ofereceu uma verdade
Me fez provar em dúvida, me deixou tonta de desejo
Querendo ou não, era quase possível
Um olhar, uma percepção
E pronto, estava feito
Eu só o seguir, não lhe prometendo voltar
Não lhe estendendo o próximo dia
Mas sim, o agora.
Em troca, a realização de uma troca de abraços
Da união de dois corações
Do encontro de dois corações.
Dois livres, intensos e apaixonados corações.
Paguei.
Paguei um saldo altíssimo de palavras mal ditas, ou melhor, palavras ditas em vão.
Minha mente fez um nó
E o outro dia, foi uma espera
Outra sua espera.
A vontade era de que você se fizesse presente
Eu já não estava mais ligando pro que pudesse, viesse acontecer
Já havia me burlado
(E gostei tanto disso)
Depois, você veio, solto
Crescido, superior
E eu, conhecendo, te desenhando com as cores que podia te enxergar
Mas nada, ainda poucas linhas brancas
Sem tantas cores
Só a lembrança de um outro dia.
Um presente, uma cheia, uma estrela gigante
E você, sorridente, solto e cheio de energia
De fato, uma energia totalmente, apaixonante.
Veio o beijo.
O conselho.
A conversa, me guardar ou falar?
Assegurar ou desgrudar de fato totalmente
É que eu gostei, é que foi bom
Mas acho que não é nada além.
Um sumiço, um aperto
Aparição, e é sem querer!
Eu sei.
Depois, a saudade
E ela não acabava
Ela não termina
Saudade é lembrar com carinho, é entender que estar longe é uma conseqüência da lembrança.
O reencontro.
E eu te acho tão lindo, tão solto, tão, tão, pertinho de mim
Mas ainda aquela sensação
Uma perda, aquela sensação do início de um falso amor, um outro olhar
Não podia ser a mesma coisa
Ai você volta, me olha, me toca e me pedi paciência
Um pouco perdido, meio sem orientação
Quase me gritando coisas que só eu devo saber
Por um lado, a parte que me mostra que não devo, ou não deveria continuar
Por outro a vontade de cuidar, a vontade de prometer sempre voltar
E mostrar que eu levo você comigo sempre
Mesmo longe, eu sinto você aqui
E acho que já te conheço há tempos...
(E eu gosto tanto disso)
O porquê é simples e singular talvez
É que só queremos viver, só queremos estar quando possível estar
No meu eu mais profundo, eu sinto que você já ocupou um espaço totalmente necessário
Que só esperava te ver chegar
Que só entendia isso se fosse assim, livre
Ah... sei lá, eu parei há muito tempo de me preocupar com tanta burocracia pros sentimentos
“Que maravilhosa forma de pensar”
Não me importo. Eu tenho paciência, crio forças.
Quero que nunca pare de sonhar
Quero que não me deixe ir tão fácil
É que tudo isso é saudade
Tudo isso,

É a gente.


Marina Ramos

terça-feira, fevereiro 19

À última flor da janela do lado da casa esquerda.







           Era noite e gelava como nunca mais havia esfriado. Ela nunca mais havia aparecido na janela, era um pouco difícil perceber aquilo tudo. Para que eu conseguisse enxergar algum tipo de movimento se fazia necessário me amarrar ao pé da cama e envergar-me até não conseguir tocar os pés no chão. Daquela forma passei todos esses 5 meses, no entanto ela nunca me viu.
           Um dia tive a péssima ideia de me envergar um pouco mais, afinal, ela valia qualquer tipo de tentativa. Mas dessa vez fui muito além, mas não passei do chão do jardim. Quando acordando estava, sentir uma presença de jasmim ao meu redor estava no jardim e alguém me puxava os cabelos. Ela era. Tão pequena tão razoável. Simples. Tão minha e tão livre. Era como se ela respirasse como um passarinho que podia perceber os sentidos de qualquer outro animal que se aproximasse.
          Era perfeito. Eu tinha a situação, o acidente, o momento e a flor. Foi quando por uma imensidão de imensuráveis e lentos 3 minutos ela sumiu. E eu acordei de uma leve pancada. Mas não era possível que aquilo pudesse ter sido somente um sonho. Ou um sinal. Talvez um sinal. E como lidar com algo tão distante? Como entender este sinal? Dias se passaram até eu entender que tudo aquilo era poesia. Amor. Uma paz imensa que me invadia me envolvia e me rasgava a alma. Eu estava complemente louc@, alucinad@ e incapaz de entender tudo aquilo. Todo aquele sentimento que me não me suportava, que sem respeitar o meu espaço e minhas vontades rompiam a porta do meu coração.
          Daquela casa nada era normal. Movimentações suspeitas e um jarro lindo no canto esquerdo. Um jarro lindo, uma cor avermelhada e ao mesmo tempo um verde que sobressaia de dentro. Eram detalhes que me envaideciam e me preenchiam. Um dia passei o dia me perguntando se talvez, alguém, um dia, pudesse me olhar de lá. Mas não. Isso nunca aconteceu. Por mais otimista e esperançosa que a situação me propiciava. Contudo, aquela janela me enchia de prazer e verdades, vaidades. Narcisismos e um tanto de reflexões.
            5 meses exatos de frio extremo. 5 exatos meses de puro  anti socialismo. Voltando ao acidente, que permeava a minha memória, sentir vontade de poder expressar tudo que estava engasgando-me há tempos antigos. Antigos e miseráveis tempos de tortura. Tortura esta de amor. Platônico e ensurdecedor amor que me sugava a alma. Como era possível? Um alguém tão distante e ao mesmo tempo tão próximo?
        Nessa sensação de loucura e complexos, tomei coragem e fui até a porta. De longe, atravessava olhando para os lados rezando para que um caminhão passasse muito perto e com um susto eu me assustasse e novamente, como sempre, fugisse dali. Mas o miserável não passou. Andei mais devagar e nada. Cheguei até a porta, olhei para cima como se esperasse um possível sinal novo. O sol estava pino, e o frio era de doer. Como um filete milagroso, o sol havia em cegado. E olhando para cima permaneci. Aflit@.
        Com seus exatos e puros 3 minutos em que cronometrei as batidas do meu coração juntamente com o da porta, a minha cegueira momentânea e todo o meu amor maluco sentir algo em arrebatar. O jarro havia caído sobre a minha cabeça. Cai no chão como qualquer coisa que saia do seu pé, da sua origem. Relativo.
      Um pouco sombri@, fui acordando e lá estava ela. Uma linda imagem, uma linda renascença. Um mistério delicioso de se querer provar. Um sabor quase inerente. Uma vida quase que propícia a loucuras. Uma bela e impermeável menina, a última flor da janela do lado da casa esquerda.



Marina Ramos

terça-feira, janeiro 29

Tão nós.




                                                       ***                                                                    

Ele disse que não ia me beijar
Mas ele beijou
E eu também disse que tudo aquilo talvez fosse passar
Mas não passou
Por algum tipo de fraqueza ou de sorte
Mesmo que não fosse tão forte
Aquilo tudo cresceu
E não foi da noite para o dia (e nem vise versa)
Hoje eu me peguei olhando profundamente pro meu eu,
Mas lá no interior
Onde tudo esteve tão confuso
E hoje às vezes senti a solidão tão de pertinho,
A verdade ela é plural, e o correto não há
E até que eu quisesse fugir
Ou um dia talvez recomeçar
Tudo aquilo que um dia fez tanto e tampouco sentido para nós dois
Eu estaria me enganando
Fugindo de mim mesma
Estaria correndo de mim
De você
De nós dois
A verdade ela é plural, continental e por vezes distante
Não sabemos a ordem, mas ainda assim faremos, fazemos planos
Não sabemos sobre as surpresas, e nem elas sobre nós
De nada temos certeza
Só mesmo daquilo que eu guardo em mim
Sinto em mim
Para você,
Que um dia já me olhou com tanta vontade de amar
E eu um dia me deleitei nos braços de voar,
Reparo, afago, me jogo, me deito, e voo
Para que tudo aquilo que hoje faz mais sentido, mesmo sendo confuso às vezes
Para que possamos aproveitar cada minuto juntos
Ou distantes
Ou equiparantes
Para que nós dois, sejamos nós dois
Pequenos, porém grandes
Pretensiosos e desesperados
Aliviados e totalmente desregulados
Porém, definitivamente
Apaixonantemente
Amantes para todo sempre.



Marina Ramos 

quarta-feira, janeiro 9

Meu caro querido.




- Oi.

Não tenho mais forças para dizer uma se quer outra palavra que não seja isso. Oi.
Saúdo aqueles que conseguem transformar isso em uma frase composta, ou que ao menos possa acompanha-lo com um sorriso. Estive pensando em lhe falar isso há tempos meu querido, mas não consigo. Não sozinha. Não sem te olhar, pela última vez... Juro que dessa vez vai doer menos, dessa vez vai ser para sempre. Estamos os dois cansados, digo, exaustos. Não sei como você suportou todos esses dias, ainda com coragem e forças para retornar cada carta que eu não enviei. Retornar todos os sorrisos que eu não te dei. Retribuir as forças que eu nunca nem se quer te emprestei. Não sei mais se é medo, acho mesmo que estou fadigada da vida.
Desculpa meu querido, falo demais e sei que palavras assim pode nos machucar ainda mais. Só que eu não consigo ser diferente e acho que você sabe disso. Quero fazer diferente dessa vez meu amigo. Quero que dessa vez eu possa ser diferente pra você. Para nós dois. Querido, deixo então aqui uma lista de coisas para você não esquecer. Aqui vão:
1-   O mundo não vai acabar, ele só vai descansar por um dia, até o mundo merece isso não é? Talvez falte luz na cidade toda, mas a Lua não vai te deixar na mão.
2-   Por favor, não deixe mais pra depois aquele seus inúmeros projetos de vida. Sim, são só projetos, no entanto meu querido, eles só irão fazer, de fato, parte de você quando coloca-los em prática.
3-   Não esquece que o leite azeda.
4-   Cuidado quando usar aquele seu sapato sem cadarço, da última vez eu tive que te salvar.
5-   Escute as melhores músicas que puder. Elas serão melhores porque você vai acha-las assim, serão melhores para você.
6-   E não deixe de sonhar nunca, foi assim que a gente se conheceu, sonhando...

7, 8,9,10,11, 12, 13, 14, 15, 16...

Ainda assim, eu sei que você vai acabar esquecendo muitas das coisas que eu listei. Sinto por continuar sendo tão metódica e sonhadora. Meu caro, não consigo mais, por isso já fiz a minha lista de coisas a não mais esquecer. E depois de você... Ela parou de crescer. Não sei como fazer mais, não posso te ver chorar por isso mando essa carta. Um tanto quanto tradicional para você, um querido tão moderno e ao mesmo tempo tão... Você. Quero desocupar você, ando fazendo muita falta a mim mesma, já não penso mais em mim. Quero desocupar você de pensar em mim também. Querido, só tenho mais a lhe dizer que eu sentirei a sua falta. Falta de sentir o seu sorriso chegar a mim com tanta força. A falta ainda mais de escutar você falar qualquer coisa. E mais ainda de te perceber como percebi esses dias. Tudo isso só foi para dizer pela primeira vez: Oi... Oi meu amor.

Camila.




Marina Ramos