quinta-feira, novembro 28

A Muda.






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           Acordada já às 6h da matina, batida na mesa, mamão, requeijão, pão. A agonia de ver o açúcar e melaço de cana misturado com o barulho suado do cano em gotas debaixo da pia. Combinada com um vestido verde limão e uma porção de livros que empurravam seu estômago fazendo com que o café da manhã se fizesse satisfeito em si.
Saindo, de caso, beijava a mão do apartamento 105, vigiava o corredor, sorria para dentro. Era possível se escutar o som das sapatilhas tamanho 36 do outro lado da rua. Vigiava o corredor correndo sobre as cartas que caíam da mão do 107. A vida era feita de satisfações e desejos que a fazia crer em um dia totalmente novo, mudado de novo. Descia os degraus, cantarolava baixinho, colocava os fios que restavam por detrás da orelha e sorria. Esperta. Olhava sempre da janela do térreo e buscava no horizonte um corpo de cor azul ou pudera também ser violeta. Mas nada. Nunca uma cor azulada por alí.
Já umas 7h e pouco mais, saía pelo portão principal do seu prédio por vezes medíocre. Saltitava como se escutasse música que saía dos seus quadris finos e gentis. A roupa de chita conversava com seus jovens ombros robustos, seus dedos de anéis, colar que faltava miçangas, esmalte cor de unha e lábios que a definiam como uma suposta menina ordinária. Enquanto as cores calmas ainda não se podiam fazer em corpos, utilizava a calçada como meio de um encontro que poderia defini-la como dona do seu próprio ser. Sem pisar nas linhas que definiam os quadrados do chão, saltava como uma amarelinha cruzando os pés e os dedos das mãos, os quais a faziam crer na sorte daquele dia.
Antes do cheiro do trabalho e o do café se aproximar um alguém passava segurando as paredes descascadas de um desenho já levado pelo tempo carregado de papéis ao redor de pessoas se rifando por mais inutilidades. Ela, como num salto, foi puxada para o chão onde pudesse enxergar o que estava acontecendo. Caindo sobre os pés de um alto, com cabelos levinhos e branquinhos, arregalava os olhos como quem pedisse perdão. Levantou-se, agarrou os livros e percebeu algo de diferente naqueles cabelos brancos que soltavam histórias pelos fios. Passou as mãos no seu rosto, mas sem toca-lo e entendeu. Ele não enxergara nem se quer um palmo em direção a sua face.


Segurou-o pelo ombro até chegar ao ponto de ônibus. Ambos sorriam sem nada a falar. Em despedida deu a ela um papel embrulhado, apertou e beijou a mão que incrivelmente era doce como seu olhar parado. Dalí ela seguia para sua responsabilidade na lanchonete da esquina. Atravessou a rua, entrou, trocou de roupa, colocou o avental deixando cair o papel embrulhado que havia ganhado há pouco. Com muito cuidado e doçura desamassava o segredo. Em surpresa nada havia escrito. Era um pedaço de papel de biscoito. Um papel de cor azul. Sorriu com esperteza e seguiu o dia. E alí se fazia Joana, a menina que evitava as palavras. Da janela do térreo não se podia perceber a existência feliz que existia no 103. 



Marina Lua Ramos