quinta-feira, outubro 20

+1a



Acordo
Ligo a TV
Sinto uma pressão enorme que vem de lá pra cá
E vice versa
Vejo um corpo
Ele está deitado e chora
Por alguém que foi embora
Contra sua vontade
Sento na cama
Aumento o volume
E muitos corpos gritam
Abaixo o volume
Mas ainda escuto os corpos
Vejo que eles passam em quantidade
Diariamente
Não é porque eles querem
Contra sua vontade
Falta o ar
Falta ligação
Falta palavra
Ou até mesmo permissão
Desligo
Olho o chão e sinto gelado
Me troco até o pescoço
Sem que um fio saia do coque
Bolsa, papel, tesoura, canetas, livros, palha...
Uma infinidade de detalhes que eu entendo
De longe a maçaneta da porta me olha com aflição
Seguro forte
Rodo
Saiu
Rodo
Respiro
Surpresa
Novidade
Asfixia
Pra atravessar a rua é um horror
Ando depressa
Alguém me fareja, me quer por minutos
Me come com os olhos
Me proporciona o prazer do medo
Até que o dia vira madrugada
Eu volto
E posso me transfigurar
Nada de fio preso
Nada de linho até o pescoço
Mas a minha cama é perto da janela
E depois dela
Ainda prevejo olhares
Preciso dormir coberta
Se não quiser morrer de calor
Ligo a TV
Um pouco de entreter
Mas vejo você meter o nariz onde não deveria
E você sabe que não deveria
Espero a notícia sobre mim
Mas não falam sobre a gente na TV
Eles comentam e logo depois falam sobre o Natal
Sinto raiva
Ai eu choro
Lembro que o dia de amanhã pode piorar
Mas ai eu ligo pra gente
Vejo que de você e de mim tem muito a ver
E que somos tantas que não dá pra contar
São detalhes que só a gente sabe
E a TV não sabe/não quer (?) contar
Mas sobre nós a gente conhece
Só precisamos, então
(Des)ligar



Marina Lua Ramos

*ExperimentAMO
* Fotografia Gi Rodrigues ♡
* Agoceta - Festival Elas Por Elas


segunda-feira, maio 30

Por hora

fotografia de Marcos Menezes



Acordo
Ligo a TV
Sinto uma pressão enorme que vem de lá pra cá
E vice versa
Vejo um corpo
Ele está deitado e chora
Por alguém que foi embora
Contra sua vontade
Sento na cama
Aumento o volume
E muitos corpos gritam
Abaixo o volume
Mas ainda escuto os corpos
Vejo que eles passam em quantidade
Diariamente
Não é porque eles querem
Contra sua vontade
Falta o ar
Falta ligação
Falta palavra
Ou até mesmo permissão
Desligo
Olho o chão e sinto gelado
Me troco até o pescoço
Sem que um fio saia do coque
Bolsa, papel, tesoura, canetas, livros, palha...
Uma infinidade de detalhes que eu entendo
De longe a maçaneta da porta me olha com aflição
Seguro forte
Rodo
Saiu
Rodo
Respiro
Surpresa
Novidade
Asfixia
Pra atravessar a rua é um horror
Ando depressa
Alguém me fareja, me quer por minutos
Me come com os olhos
Me proporciona o prazer do medo
Até que o dia vira madrugada
Eu volto
E posso me transfigurar
Nada de fio preso
Nada de linho até o pescoço
Mas a minha cama é perto da janela
E depois dela
Ainda prevejo olhares
Preciso dormir coberta
Se não quiser morrer de calor
Ligo a TV
Um pouco de entreter
Mas vejo você meter o nariz onde não deveria
E você sabe que não deveria
Espero a notícia sobre mim
Mas não falam sobre a gente na TV
Eles comentam e logo depois falam sobre o Natal
Sinto raiva
Ai eu choro
Lembro que o dia de amanhã pode piorar
Mas ai eu ligo pra gente
Vejo que de você e de mim tem muito a ver
E que somos tantas que não dá pra contar
São detalhes que só a gente sabe
E a TV não sabe/não quer (?) contar
Mas sobre nós a gente conhece
Só precisamos, então
(Des)ligar



Marina Lua Ramos

segunda-feira, abril 18

Eu quero que você dê um sorriso gostoso.






Eu danço com a música do tempo. Eu faço com ou sem música. Eu choro com ou sem motivo. Eu mergulho pra me sentir sereia e entendo que sou parte do mar. Eu vivo intensamente os meus amores para não me arrepender do que não fiz para que existisse paixão. Eu acredito no amor e vivo por ele. Eu sinto a felicidade e busco por ela todos os dias dentro de mim. Eu como o que me dá vontade, posso me arrepender uma vez ou outra, mas eu já comi e fico bem. Costumo emagrecer e engordar e emagrecer com frequência, culpa da minha ansiedade pré e pós escrita. Eu sinto uma fome que parece não ser só minha, parece ser de todas as mulheres que gostariam de viver mais por elas, para elas. É uma fome que não finda, que não acaba que se renova a cada amanhecer e a cada nova face. Eu assisto ao mesmo filme várias vezes, sou capaz de ver o mesmo umas três vezes no dia. Tenho grande apresso por comédia e histórias de terror, mas não consigo terminar uma frase que seja nesse intuito, só me vem à vontade de escrever o que eu vivo de mais intensamente. Gosto de escrever sobre os meses, pelos meses. Acompanho as fases da lua e cada dia estou de afeto com um planeta. O que me resta é ler o horóscopo todos os dias no jornal e perceber que tudo está tão igual. Costumo guardar dinheiro e só encontrar depois dentro do bolso do jeans, bem lavadinho. Eu acredito em deuses, fadas, ninfas e afins. Sou metade homem e por vezes sertanejo. Rezo todos os dias, às vezes até dormindo. E mesmo que eu sofra baixinho dentro de mim pulsa uma agonia frenética que escorre pelos meus dedos e me causa múltiplos orgasmos literários. Eu não quero que você sofra quando me lê, não quero ibope, só quero que você me conheça e perceba algo de mim em você.



Marina Lua

sábado, março 26

Sinto cheiro de maracujá em todo canto da casa.






     Hoje a minha inspiração são só pra frases. E nenhuma delas faz nenhum tipo se quer de sentido algum. Eu já escrevo sobre tudo hoje, e nada dar certo. Nada faz sentido. É como se eu fosse parar... De viver... Agora mesmo! Agora mesmo! Me falta o ar. (aaaaaar! Finge que morre) Mas ninguém nunca acreditaria nisso. Uma crise aos míseros dezessete, novinhos, porque sete é no masculino. Mas é a mesma crise dos doze. Os míseros doze só que agora é tudo ao contrário. E eu nem sei mesmo explicar cada palavra que eu digo. (põe o ar pra fora) E o ar me falta. 
     Gosto de lembrar dos meus novinhos doze. Os doze, também masculinos. Não que eu seja. (se toca) Não que... Não importe. Mas ora, os doze são dádivas, (pega nos peitos) são duas dádivas... Grandes, (pausa) agora... Grandes.  Portão 28, apt 501, prédio cor de pêssego e (tira um pêssego do bolso e o cheira) um cheirinho de pão com passas que saía do forno exatamente às 15:30, as vezes 15:35, porque o padeiro só pensava nos sonhos. E eu digo sonhos, literal. Era um cheiro tão bom, cheiro de aniversário. E já deu pra reparar que na palavra aniversário tem um “RS” como um riso? Da expressão que a gente utiliza na internet.  Eu reparei isso muito antes que você. (come o pêssego) Aposto que ta todo mundo nisso agora não? 
    (respira fundo) Eu gosto de ter boas lembranças, de guardar tudo aqui comigo. Já era pra eu ter mudado inclusive de apartamento, mas elas não me deixam. As lembranças me seguram aqui. E eu gostaria tanto de ter menos manias. É que eu me pergunto, uma pessoa como eu, tão plenamente refinada (imita uma lady), não deveria ter tantas manias. (olha pro lado) A senhora não acha milady? (imita a voz da milady) “Oh, mas sim é claro, uma mulher tão refinada como eu, não deveria dar tanta trela pra histórias tão pouco românticas, agrestes, de poucas expressões, verdades intensas e pouca retratação.” (volta) Ah, mas milady assim você me envergonha na frente dos meus convidados! “E não poderia deixar de lembrar que hoje é um dia especial, não?” Um dia especial? Só se for para a senhora que estar prestes a entrar na crise dos 45. “Oh, mas isso é um insulto, claro e calculado. Você é fria” Ah senhora não sabe como! “Pare de ser não obsoleta. Seja menos animalesca, e não me destrate assim! Ora, sua menina insolente!” Ora, sua senhora sem nenhum tipo de escrúpulos! “Ora” Ora “Ora!” (suga o ar) Mas me falta o ar. Que triste notícia para ser lhe dada milady, (plateia) meus caros, estou prestes a entrar numa fase de insustentáveis negações, inúmeras e repentinas insatisfações sexuais, procuras e infelicidades inconstantes. Estou inconstante. Eu sou realmente assim (abre um chiclete), uma pequena burguesa, infeliz que sou. (COMO CENA) OH céus, trovoadas e Jasões, porque, pelo o que me deixam!? 
    (volta a si) Apt 501, portão 28, prédio com de pêssego e um cheirinho de pão doce, de passas se me lembro muito bem.  (levanta e sai dançando) Ah, e como era bom não entender nada sobre o que fazíamos, não é mesmo milady? Como era bom, aos doze é tudo tão fácil. “Olha lá, a menina, aos doze, pura e sem nenhum pensamento medíocre ou fugás.” Idiotas! Não sabem de nada, uma pura e sem nenhum pensamento blablabla? Eu era uma puta! (senta-se, procurando algo no diário) Porque eram assim que se chamavam as mulheres que se “metiam a besta” em retrucar algum tipo de informação dada por qualquer um da época. 1999. E ainda assim eu recebo tantas e quantas pauladas na goela por falar o que eu quero. E assim, eu, grande pessoa. 
    Milady? Ainda está aqui? Oh, que pena. Levaram milady. Acho que agora assim Pasárgada aguentará mais uma no inferno. Ou nos céus de Dionísio! Mas milady tinha a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes (fecha o diário e respira fundo) Oh! Já me basta! Sinto cheiro de maracujá em todo canto da casa. (Guarda o chiclete embaixo da cadeira, mão no peito) A procura por aqui acaba, estou feliz assim, não tanto como a milady, pois ela, diriam, se desencontrou. 
    E eu... (tira mão do peito) Me desencantei. Eu não quero dizer nada mais. (abaixa a cabeça e levanta rapidamente) Eu quero dizer TUDO. Apt 501, e hoje eu nunca mais volto aqui. Meu nome você e a gente vai ser muito feliz juntos. Porque juntos somos alguém. Apenas um espinho que sabe da dor, do amor e suas paródias. (abaixa a cabeça) Eu amo a lógica, e me perco na ilusão. Hoje é meu aniversário, décimo oitavo ano. Prazer, Paloma e eu posso ser o que eu quiser.



BLACK



Marina Lua

Muralharim




Avisto uma muralha
            Um pouco de curiosidade
            Uma pitada de incerteza
            Uma chuva de cores
            Pedra, papel e tesoura
            Nada disso
            Imaginação
            Compreensão
            Alívio e tensão
            Seria mesmo uma muralha?
            Ou um tsunami?
            Nada disso
                                           Sou eu mesma            
     Só que pensando


por  Marina Lua

sábado, outubro 11

De(lírio)s





***


É tarde, ainda estamos em abril. Eu acordo assustada pelo sonho que vem me assombrando a meses. Nele, estou caminhando pelas ruas de Paris procurando onde enfiar a minha face naquela noite. Também era tarde e sentia muito frio. Caminhava como se soubesse onde queria chegar. Avistava no final da rua um corpo encostado no poste que fazia a sombra da silhueta dos seus quadris. Humildes quadris. Eu me aproximava mais e a sombra diminuia, enquanto a minha aumentava ao redor da estrada. Chego perto, suspiro e não há ninguém, só à marca de cimento no chão. Aos poucos eu decido voltar e continuar de onde havia começado. Mas quando eu volto não há mais nada, nem rua, nem estrada e nem mesmo as luzes de Paris. Ai eu sufoco. Começo a perder primeiro a fala, depois sinto uma enorme dor no estômago, vou caindo e morro. Esse é o momento que eu me assusto e acordo chorando. Eu choro até não aguentar mais, até os meus olhos ficarem chineses. Então começo a escrever sobre uma dor que me move, sobre Freud e seus limites sexuais. Quando você não dorme o que faz? Eu sonho.



Marina Lua Ramos

quinta-feira, novembro 28

A Muda.






***

           Acordada já às 6h da matina, batida na mesa, mamão, requeijão, pão. A agonia de ver o açúcar e melaço de cana misturado com o barulho suado do cano em gotas debaixo da pia. Combinada com um vestido verde limão e uma porção de livros que empurravam seu estômago fazendo com que o café da manhã se fizesse satisfeito em si.
Saindo, de caso, beijava a mão do apartamento 105, vigiava o corredor, sorria para dentro. Era possível se escutar o som das sapatilhas tamanho 36 do outro lado da rua. Vigiava o corredor correndo sobre as cartas que caíam da mão do 107. A vida era feita de satisfações e desejos que a fazia crer em um dia totalmente novo, mudado de novo. Descia os degraus, cantarolava baixinho, colocava os fios que restavam por detrás da orelha e sorria. Esperta. Olhava sempre da janela do térreo e buscava no horizonte um corpo de cor azul ou pudera também ser violeta. Mas nada. Nunca uma cor azulada por alí.
Já umas 7h e pouco mais, saía pelo portão principal do seu prédio por vezes medíocre. Saltitava como se escutasse música que saía dos seus quadris finos e gentis. A roupa de chita conversava com seus jovens ombros robustos, seus dedos de anéis, colar que faltava miçangas, esmalte cor de unha e lábios que a definiam como uma suposta menina ordinária. Enquanto as cores calmas ainda não se podiam fazer em corpos, utilizava a calçada como meio de um encontro que poderia defini-la como dona do seu próprio ser. Sem pisar nas linhas que definiam os quadrados do chão, saltava como uma amarelinha cruzando os pés e os dedos das mãos, os quais a faziam crer na sorte daquele dia.
Antes do cheiro do trabalho e o do café se aproximar um alguém passava segurando as paredes descascadas de um desenho já levado pelo tempo carregado de papéis ao redor de pessoas se rifando por mais inutilidades. Ela, como num salto, foi puxada para o chão onde pudesse enxergar o que estava acontecendo. Caindo sobre os pés de um alto, com cabelos levinhos e branquinhos, arregalava os olhos como quem pedisse perdão. Levantou-se, agarrou os livros e percebeu algo de diferente naqueles cabelos brancos que soltavam histórias pelos fios. Passou as mãos no seu rosto, mas sem toca-lo e entendeu. Ele não enxergara nem se quer um palmo em direção a sua face.


Segurou-o pelo ombro até chegar ao ponto de ônibus. Ambos sorriam sem nada a falar. Em despedida deu a ela um papel embrulhado, apertou e beijou a mão que incrivelmente era doce como seu olhar parado. Dalí ela seguia para sua responsabilidade na lanchonete da esquina. Atravessou a rua, entrou, trocou de roupa, colocou o avental deixando cair o papel embrulhado que havia ganhado há pouco. Com muito cuidado e doçura desamassava o segredo. Em surpresa nada havia escrito. Era um pedaço de papel de biscoito. Um papel de cor azul. Sorriu com esperteza e seguiu o dia. E alí se fazia Joana, a menina que evitava as palavras. Da janela do térreo não se podia perceber a existência feliz que existia no 103. 



Marina Lua Ramos