sexta-feira, dezembro 7

Arredia.





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Um dia desses eu acordei querendo roubar a lua pra mim. Egoísmo! Disse a minha consciência. Ontem eu acabei descobrindo que tem alguém apaixonado por mim. Já parou pra pensar que enquanto estamos tão revoltados ou ligados em outras coisas da vida, pode ter alguém por ai que só pensa na gente? Que pode está apaixonado por nós? Nesse caso, por mim. Dia desses me sentir tão sozinha. Foi isso que me tirou dessa tremenda fossa. Eu sabia que em algum lugar desses tem alguém que é por mim. Essa história toda da lua surgiu como um surto da minha psiques mal curada. Se é que isso pode acontecer.   
Estava eu andando pela casa até quando escutei um barulho e como não me importava mais esse mundo, medo já não estava incluso em minha cons(ciência). Descobrir que tinham acabado de invadir a casa da minha vizinha. O pior que a invasão era de mentirinha. Ela tinha pagado um cara para invadir a casa dela e depois... Daí já não mais importa. Quando dei por mim estava muito próximo da varanda, percebendo todo aquele movimento que se passava. Quanto mais ele subia, ela fingia que gritava, até porque aquele horário mais “ninguém” estava acordado. Além de mim, claro, percebendo toda aquela cena cômica e um tanto quanto exagerada. Mas ainda assim me perguntava “Por quê?”. Primeiro pensei que pudesse realmente ter sido isso, pagamento e produção. Talvez ele fosse o que chamamos de moço da conta. Da conta das mãos, dos pés, das coxas... Mas e por que ele não poderia ser um amigo que veio conversar nas horas vagas enquanto sua família esta sonhando? Enfim, toda aquela história me trouxe uma sensação muito arredia. Eu simplesmente sentir raiva dela. Porque nem invadindo a minha casa conseguir tal proeza, aliás, nem nunca invadiram minha casa. Foi quando tive uma ideia!
 Era uma quinta feira à noite e eu estava totalmente em mim. Olhei pela janela que dá para vizinha, e a deixei entreaberta. Jurei que nunca mais faria isso. Peguei a minha chave, abrir a minha porta e deixei a chave lá, pendurada. Sentei no sofá como se esperasse qualquer coisa e a qualquer momento. Esperei. Esperei. Esperei... Cochilei. Acordei assustada dando o pulo do gato “Ai! Entraram e eu nem sentir!”. Dei-me conta de que a porta estava exatamente no mesmo lugar, eu sentada exatamente como estava e já era de manhã. Raiva. Esperei a outra quinta feira. Olhei pela janela e vi que a vizinha já se preparava para o desfrute. Foi quando peguei a chave, abrir a porta e sentei no sofá. Esperei, esperei... Nada. “Não é possível!” Gritei. E isso foi se repetindo, repetindo, repetindo. E foi se tornando um vício profundo. “Essa é a última vez.”.  Enganava-me.
Até o dia que eu fiz tudo como mandava meus costumes. Só que dessa vez a vizinha estava na sua sala de leitura, tomando chá. “Chá? Mas será que ela enlouqueceu? Ou simplesmente esqueceu que dia é hoje?” Enfim, encucada, mas continuei arrumando tudo nos conformes. Peguei a chave, abrir a porta e sentei no sofá. Só que dessa vez eu não cochilei, não teve nem tempo. Sentir que tinha alguém se aproximava. “Mas o que isso?”. Não me conformei. Todo esse tempo e agora que entrou? Não me conformei. Ele entrou, pegou as chaves e trancou a porta. Olhou pra janela entreaberta e me segurou firme. E ai eu cochilei. Profundamente. Só que dessa vez eu acordei com outra aparência, com outro cheiro, como outra. Nesse dia não sai de casa. Anoiteceu. Foi quando resolvi abrir a janela. Ai eu vi. Minha vizinha no quarto e o cara invadindo novamente sua casa, como de costume. “Mas... Mas... Mas! Então hoje é quinta feira?”
Percebe tudo que eu havia feito, estava ficando louca ou o quê? Não é possível. Fechei a janela, peguei a chave, abrir a porta e como ficou eu a deixei. Entrei pela sua porta entreaberta, subi suas escadas, entrei no seu quarto e vi a movimentação. Com um suspiro o homem que invadia a sua casa todas as quintas feiras nunca havia sido um problema perante a minha presença ali. Antes mesmo dela falar alguma coisa, ainda em pleno movimento, eu suspendi a minha inocência e fraqueza e disse “Ontem foi quarta feira!!!”. E em ininterruptos momentos, lancei a minha fraqueza perante aquele movimento. Foram dez lances. Em cada um.
Sai de lá, deixando a porta aberta e suas chaves penduradas na porta. Entrei em casa, fechei a porta e deixei a janela entreaberta. Sentei no sofá e cochilei. Um dia desses eu acordei querendo roubar a lua pra mim. Egoísmo! Disse a minha consciência. Ontem eu acabei descobrindo que tem alguém apaixonado por mim.



Marina Ramos

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